Alguns fatores determinantes da inovação e as diferenças setoriais

No campo da ciência econômica, a escola de pensamento que mais se empenhou em entender a importância da mudança tecnológica e da inovação nas decisões empresariais, na dinâmica dos diferentes setores econômicos ou mesmo no desempenho dos países foi a escola evolucionária neoschumpeteriana que primeiramente se inspirou nas contribuições de Joseph Shumpeter (1883-1950). Embora tenha ficado claro, através dos seus livros, que a inovação é o motor que coloca em marcha o processo de desenvolvimento, uma questão precisava ser respondida: por que os setores de uma economia diferem em suas taxas de inovação? Em outras palavras: Por que alguns setores são muito mais inovadores que outros?

Para encontrar algumas respostas a estas questões, foi preciso estudar os principais determinantes da inovação e ver como estes aparecem de forma diferenciada em vários setores de uma economia. Buscando evidências sobre isso, Giovanni Dosi apresentou algumas considerações sobre em seu livro de 1988, Technical Change and Industrial Transformation. Lá ele explicou alguns desses determinantes, dos quais nos importa aqui dois: (A) Oportunidades e (B) Cumulatividade do progresso técnico. Mas podemos complementar a sua análise inserindo outro fator que foi discutido mais tarde, em 2001, por Bengt-Åke Lundvall em um texto chamado Why the New Economy is a Learning Economy: (C) a cumulatividade do conhecimento e do aprendizado. Vamos ver como esses fatores podem ajudar a entender porque os setores apresentam diferenças em suas taxas de inovação.

A – Oportunidades. É preciso dizer que os diferentes setores da economia geram diferentes incentivos e oportunidades para inovar. Embora a inovação possa acontecer em todos os setores e em todos os mercados, alguns deles já estão em pontos avançados da sua maturidade e as oportunidades de inovação foram diminuindo ao longo do tempo. É possível dizer, por exemplo, que há oportunidades de inovar no setor de vestuário, e não são poucas. Mas não restam dúvidas de que os incentivos a inovar são muito mais intensos no setor de games virtuais e as oportunidades de inovação são muito mais abrangentes no mundo das startups. Em geral, os setores chamados de tradicionais já foram muito inovadores no passado, mas hoje já possuem uma tecnologia madura, uma estrutura de mercado bem definida e, se isso traz certa estabilidade, por um lado, por outro revela que as oportunidades de inovação foram diminuindo. Assim, setores tradicionais geram oportunidades numa intensidade menor do que setores ligados às tecnologias nascentes. Empresas que atuam em setores de aplicativos para celular, por exemplo, são muito pressionadas a aproveitar as oportunidades que ‘fervilham’ a todo instante, enquanto as empresas nos setores tradicionais sofrem menos esse tipo de pressão.

Mas devemos pensar: como setores tradicionais podem, então, voltar a gerar mais oportunidades? Há, basicamente, duas formas de isso acontecer: (i) diminuir a distância entre as tecnologias vigentes no setor e as tecnologias de fronteira e (ii) aumentar o uso de novos recursos tecnológicos que se mostram como tendência de futuro: sensorização, automação avançada. O que vale a pena dizer é que quanto mais avançados os processos tecnológicos, mais oportunidades eles criam, mesmo para setores maduros.

B – Cumulatividade do Progresso Técnico:  Esse conceito está ligado a seguinte percepção: o alto progresso técnico de duas tecnologias que têm lógica e trajetórias distintas pode gerar muitas possibilidades de inovação quando essas tecnologias são combinadas. Em outras palavras, algumas inovações que só foram possíveis porque outras tecnologias avançaram tanto que geraram novas possibilidades quando combinadas. O Uber, por exemplo, é uma inovação que combina várias tecnologias que evoluíram de forma independente: internet móvel, mapas digitais, precisão do GPS e massificação do uso do celular. A inovação Uber não seria possível se qualquer dessas tecnologias não tivesse avançado até o ponto que “disparou” a oportunidade de combinação.

Podemos pensar a mesma coisa dos drones: há tempos já havia helicópteros de brinquedos guiados por controle remoto. Mas por que os drones nasceram comercialmente há poucos anos? Foi somente com os avanços tecnológicos das baterias, maior controle das ondas de longa distância, da precisão de controle remoto e maior resistência com diminuição do peso de materiais é que tornaram a inovação drone possível. Essa nova combinação de avanços gerou uma nova tecnologia física que, por sua vez, abriu uma série de outras oportunidades de inovação, como a entrega de pequenas encomendas, autorizada pela Administração Federal da Aviação (FAA em inglês) a Wing, startup da Alphabet, controladora do Google.

Então, quando determinados setores da economia lidam com tecnologias que avançam rápido, as empresas são impulsionadas a combinar tecnologias diferentes para geração de inovações. O avanço tecnológico dos robôs, combinado com os avanços tecnológico do monitoramento e controle remoto permitirão, por exemplo, inovações em processos produtivos com aumento significativo da produtividade.

C – Cumulatividade do conhecimento e do aprendizado: Houve um tempo em que para inovar era preciso fundamentalmente de intuição. Hoje, como coloca Lundvall, embora a criatividade e a intuição permaneçam importantes, para inovar é preciso cada vez mais conhecimento e um processo contínuo de aprendizado. E isso precisa ser constante porque a mudança econômica acontece de forma tão acelerada que rapidamente tornam os conhecimentos defasados.

Mas essas duas ferramentas (aprendizado e conhecimento) são construções coletivas: nem as empresas ou empreendedores acumulam conhecimento ou aprendem sozinhos. É a interação que facilita o conhecimento. São os espaços de aprendizado que impulsionam novos saberes.

Podemos dizer, então que, fundamentalmente, a convergência entre esses três pontos quer deixar a lição clara: quando as tecnologias avançam, tornam suas combinações possíveis gerando várias oportunidades de inovar, aproveitarão essas oportunidades aqueles setores da economia em que os empreendedores se dedicam a acumular novos conhecimentos, a cooperar e a construir espaços de aprendizados coletivos. Setores em que as empresas e os empreendedores insistem em atuar isoladamente, sem participar de associações e de discussões coletivas e ainda em que há pouco fluxo de informação, de conhecimento e de aprendizados, cada empresa individualmente apresenta uma taxa de inovação bem abaixo do que poderia fazer.

Assim, mesmo que alguns setores apresentem uma baixa taxa de inovação, há, pela observação desses fatores, sempre a possibilidade de renovar oportunidades, aproveitar o avanço das tecnologias e se engajar em processos coletivos de construção de conhecimentos, todos necessários ao processo inovativo.

 

Ednilson Felipe é professor doutor de economia na Universidade Federal do Espírito Santo

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